Esta história se passa em tempo real, qualquer semelhança com a realidade é mera realidade, um homem sentado em seu computador lê:
A Organização Mundial da Saúde convoca reunião de emergência com especialistas de todo mundo sobre a gripe suína. 60 mortes no México.
Escola é evacuada em Nova York, aulas são supensas, 100 casos supeitos em vários estados americanos, 6 casos confirmados.
A gripe suína pode ter chegado ao Canadá, . Olha para um mapa de possíveis lugares infectados. Assusta, resolve sair.
Pega seu carro e vai para um café, perto de casa. Liga o rádio e a notícia é: autoridades sanitárias mundiais em alerta máximo. Chega.
Desce do carro, abre a porta do café. Pede um café curto e pão de queijo, pega o jornal e lê: México: alerta com a gripe suína. Fecha.
Pega o pão de queijo com a mão, come. Escuta um grupo de idosos rindo, tossindo, falando alto. Gracias. Toma o café, pede a conta.
Entra no carro, coloca o cd de Maria Rita. A cidade tá vazia, passa em volta do parque, vê pessoas correndo. Pensa porque não corre.
Passa em outra avenida e vê mulheres se exibindo, para, chama uma para o motel. Não consegue ter ereção, procura pílula, não tem.
Volta para casa, resolve deitar, adormece, acorda de madrugada tossindo, falta de ar, febre e uma enorme dor de cabeça. Liga para amigo.
Adormece. Acorda e lê no pedaço de pano branco que cobre seu corpo Emílio Ribas. Acorda e adormece, um sonho? espetam todo seu corpo.
Morre. Médico coloca informação em microblog Primeiro Morte da Gripe Suína no Brasil. Na capa do jornal Gripe Suína Faz Primeira Vítima.
sábado, 25 de abril de 2009
segunda-feira, 20 de abril de 2009
W. B. Yeats (1865-1939) was an Irish poet and dramatist. He is regarded as one of the greatest English-language poets of the 20th century. Yeats received the Nobel Prize for Literature in 1923.
When You are Old
When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.
When You are Old
When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Novo Capitalismo?
Publico abaixo um manifesto que também subscreveria com lucidez. É uma discussão que está alijada da mídia e dos círculos decisórios sobre a crise atual. Leiamos o manifesto:
“Novo capitalismo?”
Chegou o momento da mudança à escala pública e individual. Chegou o momento da justiça.
A crise financeira aí está de novo destroçando as nossas economias, desferindo duros golpes nas nossas vidas. Na última década, os seus abanões têm sido cada vez mais frequente e dramáticos. Ásia Oriental, Argentina, Turquia, Brasil, Rússia, a hecatombe da Nova Economia, provam que não se trata de acidentes conjunturais fortuitos que acontecem na superfície da vida económica mas que estão inscritos no próprio coração do sistema.
Essas rupturas, que acabaram produzindo uma contracção funesta da vida económica actual, com o argumento do desemprego e da generalização da desigualdade, assinalam a quebra do capitalismo financeiro e significam o definitivo ancilosamento da ordem económica mundial em que vivemos. Há, pois, que transformá-lo radicalmente.
Na entrevista com o presidente Bush, Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, declarou que a presente crise deve conduzir a uma “nova ordem económica mundial”, o que é aceitável, se esta nova ordem se orientar pelos princípios democráticos – que nunca deveriam ter sido abandonados – da justiça, liberdade, igualdade e solidariedade.
As “leis do mercado” conduziram a uma situação caótica que levou a um “resgate” de milhares de milhões de dólares, de tal modo que, como se referiu acertadamente, “se privatizaram os ganhos e se nacionalizaram as perdas”. Encontraram ajuda para os culpados e não para as vítimas. Esta é uma ocasião única para redefinir o sistema económico mundial a favor da justiça social.
Não havia dinheiro para os fundos de combate à SIDA, nem de apoio para a alimentação no mundo… e afinal, num autêntico turbilhão financeiro, acontece que havia fundos para que não se arruinassem aqueles mesmos que, favorecendo excessivamente as bolhas informáticas e imobiliárias, arruinaram o edifício económico mundial da “globalização”.
Por isto é totalmente errado que o Presidente Sarkozy tenha falado sobre a realização de todos estes esforços a cargo dos contribuintes “para um novo capitalismo”!… e que o Presidente Bush, como dele seria de esperar, tenha concordado que deve salvaguardar-se “a liberdade de mercado” (sem que desapareçam os subsídios agrícolas!)…
Não: agora devemos ser resgatados, os cidadãos, favorecendo com rapidez e valentia a transição de uma economia de guerra para uma economia de desenvolvimento global, em que essa vergonha colectiva do investimento de três mil milhões de dólares por dia em armas, ao mesmo tempo que morrem de fome mais de 60 mil pessoas, seja superada. Uma economia de desenvolvimento que elimine a abusiva exploração dos recursos naturais que tem lugar na actualidade (petróleo, gás, minerais, carvão) e que faça com que se apliquem normas vigiadas por uma Nações Unidas refundadas – que envolvam o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial “para a reconstrução e desenvolvimento” e a Organização Mundial de Comércio, que não seja um clube privado de nações, mas sim uma instituição da ONU – que disponham dos meios pessoais, humanos e técnicos necessários para exercer a sua autoridade jurídica e ética de forma eficaz.
Investimento nas energias renováveis, na produção de alimentos (agricultura e aquicultura), na obtenção e condução de água, na saúde, educação, habitação… para que a “nova ordem económica” seja, por fim, democrática e beneficie as pessoas. O engano da globalização e da economia de mercado deve terminar! A sociedade civil já não será um espectador resignado e, se necessário for, utilizará todo o poder de cidadania que hoje, com as modernas tecnologias de comunicação, possui.
Novo capitalismo? Não!
Chegou o momento da mudança à escala pública e individual. Chegou o momento da justiça.
Federico Mayor Zaragoza
Francisco Altemir
José Saramago
Roberto Savio
Mário Soares
José Vidal Beneyto
publicado em: Cadernos de Saramago
“Novo capitalismo?”
Chegou o momento da mudança à escala pública e individual. Chegou o momento da justiça.
A crise financeira aí está de novo destroçando as nossas economias, desferindo duros golpes nas nossas vidas. Na última década, os seus abanões têm sido cada vez mais frequente e dramáticos. Ásia Oriental, Argentina, Turquia, Brasil, Rússia, a hecatombe da Nova Economia, provam que não se trata de acidentes conjunturais fortuitos que acontecem na superfície da vida económica mas que estão inscritos no próprio coração do sistema.
Essas rupturas, que acabaram produzindo uma contracção funesta da vida económica actual, com o argumento do desemprego e da generalização da desigualdade, assinalam a quebra do capitalismo financeiro e significam o definitivo ancilosamento da ordem económica mundial em que vivemos. Há, pois, que transformá-lo radicalmente.
Na entrevista com o presidente Bush, Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, declarou que a presente crise deve conduzir a uma “nova ordem económica mundial”, o que é aceitável, se esta nova ordem se orientar pelos princípios democráticos – que nunca deveriam ter sido abandonados – da justiça, liberdade, igualdade e solidariedade.
As “leis do mercado” conduziram a uma situação caótica que levou a um “resgate” de milhares de milhões de dólares, de tal modo que, como se referiu acertadamente, “se privatizaram os ganhos e se nacionalizaram as perdas”. Encontraram ajuda para os culpados e não para as vítimas. Esta é uma ocasião única para redefinir o sistema económico mundial a favor da justiça social.
Não havia dinheiro para os fundos de combate à SIDA, nem de apoio para a alimentação no mundo… e afinal, num autêntico turbilhão financeiro, acontece que havia fundos para que não se arruinassem aqueles mesmos que, favorecendo excessivamente as bolhas informáticas e imobiliárias, arruinaram o edifício económico mundial da “globalização”.
Por isto é totalmente errado que o Presidente Sarkozy tenha falado sobre a realização de todos estes esforços a cargo dos contribuintes “para um novo capitalismo”!… e que o Presidente Bush, como dele seria de esperar, tenha concordado que deve salvaguardar-se “a liberdade de mercado” (sem que desapareçam os subsídios agrícolas!)…
Não: agora devemos ser resgatados, os cidadãos, favorecendo com rapidez e valentia a transição de uma economia de guerra para uma economia de desenvolvimento global, em que essa vergonha colectiva do investimento de três mil milhões de dólares por dia em armas, ao mesmo tempo que morrem de fome mais de 60 mil pessoas, seja superada. Uma economia de desenvolvimento que elimine a abusiva exploração dos recursos naturais que tem lugar na actualidade (petróleo, gás, minerais, carvão) e que faça com que se apliquem normas vigiadas por uma Nações Unidas refundadas – que envolvam o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial “para a reconstrução e desenvolvimento” e a Organização Mundial de Comércio, que não seja um clube privado de nações, mas sim uma instituição da ONU – que disponham dos meios pessoais, humanos e técnicos necessários para exercer a sua autoridade jurídica e ética de forma eficaz.
Investimento nas energias renováveis, na produção de alimentos (agricultura e aquicultura), na obtenção e condução de água, na saúde, educação, habitação… para que a “nova ordem económica” seja, por fim, democrática e beneficie as pessoas. O engano da globalização e da economia de mercado deve terminar! A sociedade civil já não será um espectador resignado e, se necessário for, utilizará todo o poder de cidadania que hoje, com as modernas tecnologias de comunicação, possui.
Novo capitalismo? Não!
Chegou o momento da mudança à escala pública e individual. Chegou o momento da justiça.
Federico Mayor Zaragoza
Francisco Altemir
José Saramago
Roberto Savio
Mário Soares
José Vidal Beneyto
publicado em: Cadernos de Saramago
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
A Viagem do Elefante, novo livro do escritor português José Saramago, será lançada mundialmente no dia 27 de novembro no SESC Pinheiros em São Paulo, repetindo o acontecido com o livro anterior Intermitências da Morte que também foi apresentado primeiramente em terras brasileiras. Saramago em sua costumeira clareza dedica o livro "A Pilar, que não deixou que eu morresse". Também mostra um lado humilde e doce de sua personalidade no agradecimento à Glida Lopes Encarnação que foi a anfitriã num jantar no restaurante O Elefante em Salzburgo na Alemanha, onde Saramago viu a figura de um elefante, da Torre de Belém e de uma construção de Viena que foram o mote criativo para a realização deste livro baseado em um fato que dizem ter sido real.
Saramago baseado em escassas informações históricas criou um conto, como ele denomina o livro pela falta de uma companheira para o elefante salomão, grafado com a letra inicial em letra minúscula em uma assumida escolha estilística que traz uma cumplicidade com o leitor que assim que coloca a caixa alta por conta própria no ato da leitura e no final da excursão à Viena acredita que não deveria outra maneira de dispor as letras e vislumbra a inutilidade de usar letras maiúsculas em nomes próprios.
Dom João III e sua esposa Dona Catarina de Áustria enviam um elefante para presentear o primo Maximiliano e assim acompanhamos a trajetória do elefante de Lisboa para Valladolid e depois para Viena. Saramago na trilha percorrida pelo elefante, faz incursões em temas já tratados em livros anteriores e aparece em uma inesperada materialização do narrador em um personagem que experimenta o renascimento ainda em vida guiado pelos baritos do elefante e desaparece misteriosamente em uma onomatopéia cara aos paquidermes, Ploft...
A insólita história é contada com riqueza de detalhes e momentos de tensão como uma novela de cavalaria em que a ação nunca acontece de forma explícita e sim como uma possibilidade futura. O destino de Salomão é motivo de reflexão do narrador que discorre sobre o passado, o presente e o destino de todos os seres.
Fica a todos o convite para conhecerem Salomão em mais esta saborosa leitura que José Saramago nos propicia.
Livro: A viagem do elefante
Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 256
Lançamento mundial: 27 de novembro de 2008.
Saramago baseado em escassas informações históricas criou um conto, como ele denomina o livro pela falta de uma companheira para o elefante salomão, grafado com a letra inicial em letra minúscula em uma assumida escolha estilística que traz uma cumplicidade com o leitor que assim que coloca a caixa alta por conta própria no ato da leitura e no final da excursão à Viena acredita que não deveria outra maneira de dispor as letras e vislumbra a inutilidade de usar letras maiúsculas em nomes próprios.
Dom João III e sua esposa Dona Catarina de Áustria enviam um elefante para presentear o primo Maximiliano e assim acompanhamos a trajetória do elefante de Lisboa para Valladolid e depois para Viena. Saramago na trilha percorrida pelo elefante, faz incursões em temas já tratados em livros anteriores e aparece em uma inesperada materialização do narrador em um personagem que experimenta o renascimento ainda em vida guiado pelos baritos do elefante e desaparece misteriosamente em uma onomatopéia cara aos paquidermes, Ploft...
A insólita história é contada com riqueza de detalhes e momentos de tensão como uma novela de cavalaria em que a ação nunca acontece de forma explícita e sim como uma possibilidade futura. O destino de Salomão é motivo de reflexão do narrador que discorre sobre o passado, o presente e o destino de todos os seres.
Fica a todos o convite para conhecerem Salomão em mais esta saborosa leitura que José Saramago nos propicia.
Livro: A viagem do elefante
Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 256
Lançamento mundial: 27 de novembro de 2008.
Marcadores:
a viagem do elefante,
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resenha
sábado, 6 de outubro de 2007
A primeira postagem
Carta Imaginária
Cara Nise,
Já faz mais de 60 anos desde a criação do Ateliê de Pintura do Engenho de Dentro e do Início do seu trabalho no Setor de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Nacional, hoje com o nome Instituto Municipal Nise da Silveira. Não sei se você iria gostar da homenagem, pois as grades ainda rodeiam o complexo psiquiátrico e a circulação de medicação aumentou muito e os cachorros estão desaparecendo devagar numa proporção mais lenta. O Museu de Imagens do Inconsciente resiste a duras penas e graças aos incansáveis guerreiros que você treinou e dirigiu. Mas precisam de mais reforço, de novos soldados que entendam esta luta e não tenham medo dos mergulhos no mar do inconsciente.
A Casa das Palmeiras já existe há 50 anos e só nos últimos 5 anos que os CAPS começaram a aparecer, primeiramente timidamente e agora sendo presentes em boa parte das cidades brasileiras, num país grande como esse, cada cidade tem sua particularidade e cada CAPS uma cara diferente e um jeito de funcionar diferente, estão desaparecendo as camisas de força de pano e sendo substituída pela químicas que são feitas de uma liga ainda mais forte, pois essa envolve o cérebro. O centro da terapêutica no CAPS ainda é baseado na velha classificação psiquiátrica, nos discípulos de Krepelin que tiveram grande desenvolvimento nas neurociências, mudando até alguns dos seus paradigmas, mas na psiquiatria ainda estão presos a prática da medicalização. A Terapêutica Ocupacional, ou melhor dizendo "A Emoção de Lidar" ainda não é o centro da terapia e dos estudos propostos para o atendimento dos clientes com sofrimento mental. Alguns já são chamados pelo nome, muitas oficinas, ateliês terapêuticos foram montados, o afeto existe, mas não é reconhecido como a mais avançada ferramenta terapêutica. Ainda temos muito que caminhar. Nós continuamos vivendo em um país sem memória, a explicação oficial sobre a criação deste dispositivo de saúde mental é uma homenagem a um centro de atendimento dia criado na rua Itapeva em São Paulo na década de 80 do século passado. O ineditismo da casa das Palmeiras é sutilmente esquecido.
Desde que comecei a trabalhar com pessoas como o Maurício que mergulhava no seu mundo interno com produções plásticas procurei estudar o trabalho da "velha Nise", o que encontrei foi uma mulher ousada que fez uma pequena revolução no seu trabalho cotidiano. Colocando sua ética política e de entendimento e enfrentamento do mundo em um trabalho que foi construído durante mais de 60 anos. Não encontrei a "velha Nise" e sim uma eterna jovem que sempre colocava novos desafios para com muito trabalho e luta ultrapassá-los.
Muito se lembra do "mito de Nise", salas são criadas em congresso de Saúde Mental para homenageâ-la, Centro de Atenção Psicossocial (Caps) são batizados com seu nome; mas o estudo sistemático de sua obra, o mergulho no inconsciente, os estudos de seus grossos livros da sua biblioteca são enfrentados por poucos Beneditos.
A sua indignação mostrada em negar-se em apertar o botão do eletrochoque na sua volta ao trabalho psiquiátrico na década de 40 do século passado ainda precisa estar viva hoje. No sétimo ano do segundo milênio após a morte de Jesus Cristo pessoas são confinadas em hospitais psiquiátricos, agora com nomes camuflados, e submetidas aos horrores do Inferno de Dante. Visitei a poucos dias um Centro de Desenvolvimento do Deficiente Mental localizado na cidade que moro, a menos de 500 metros do apartamento para o qual mudei e para a minha indignação lá chegando encontrei pessoas classificadas pela maneira que julgava abominada da humanidade. Uma grande ala de "vegetais", uma área de pessoas que não "incomodam os outros", outra ala de homens violentos, outra ala de mulheres violentas, onde tudo tem cadeado e os armários de ferro são amassados. Outra ala é de doentes com "hipersexualidade" que usam macacões para não conseguir se tocar. Em outra ala temos os nudistas assexuados que segundo a funcionária que me mostrou o lugar "não tem potência sexual". Percebi um esforço dos funcionários em tentar levar afeto para a Kelly, a Maria e os outros 180 seres humanos que lá estavam. Estas pessoas foram aglutinadas para "limpar outras instituições" e estavam em um hospital para deficientes físicos e mentais abandonados criada por um cartel de psiquiatras da região de Sorocaba para aumentar o lucro, primeiramente a idéia era criar um hospital psiquiátrico nos moldes normais, mas a luta antimanicomial que aumentava sua influência com a democratização no Estado de São Paulo não permitiu, então foi aberto um hospital específico para a população ligada a Febem que teria que zelar por estas vidas. Durante a visita eu vi um moço em uma cadeira de rodas e percebi que ele não tinha uma das orelhas, perguntei o que aconteceu e a funcionária me contou que tinha sido comida por outro interno numa época no início da década de 90 do século passado que os seres humanos que estavam sob o cuidado daquela instituição ficaram privados da alimentação por problemas relacionados a diminuição dos lucros dos psiquiátras que eram donos desse "negócio". O grito de Artraud em sua carta aos médicos do seu asilo precisava ser ecooado nesta instituição, pois hoje um dos donos desse "negócio" na época é o responsável pelo saúde mental no mesmo município, nos dias atuais o negócio de cuidar da verba repassada pelo governo federal para os municípios gerenciar seus centros-dias é maior que o para hospitais psiquiátricos. Os casos de maior embotamento muitas vezes são somente medicados e não tem a chance de experimentar a emoção de lidar. Precisamos encontrar muitos terapeutas com a espingarda de Lampião e o coração da Grande Mãe para realizar a revolução diária pelo trabalho e entregar a fatia necessária de afeto aos clientes que sofrem com as dores psíquicas e com as dores ainda mais forte de enfrentar este mundo.
O mundo está cada vez mais consumista e a ética parece ter desaparecido, será que umas lições de Espinoza nos ajudariam?
Mas nem só de notícias duras vive o mundo. Cada vez aparecem mais pessoas dispostas a entregar-se as profissões do cuidar, que fazem sua profissão de fé em transmitir o afeto para seu próximo, a energia feminina tenta equilibrar as destruições que o masculino trouxe a este mundo. Estas guerreiras da luz nos trazem esperança e nos fazem continuar a batalha.
Sem tomar mais seu tempo nas estrelas, mando abraços para as outras estrelas do firmamento, Raphael, Adelina, Isaac, Graciliano, Murilo Mendes, Mário Pedrosa e um abraço quântico para o Fernando Diniz,
Seu brilho é muito bonito olhando daqui da Terra,
José Otávio
P.S: pensei em me apresentar, mas imagino que estrelas do firmamento não precisem que nos apresentemos)
Porto Feliz, 06 de outubro de 2006
Já faz mais de 60 anos desde a criação do Ateliê de Pintura do Engenho de Dentro e do Início do seu trabalho no Setor de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Nacional, hoje com o nome Instituto Municipal Nise da Silveira. Não sei se você iria gostar da homenagem, pois as grades ainda rodeiam o complexo psiquiátrico e a circulação de medicação aumentou muito e os cachorros estão desaparecendo devagar numa proporção mais lenta. O Museu de Imagens do Inconsciente resiste a duras penas e graças aos incansáveis guerreiros que você treinou e dirigiu. Mas precisam de mais reforço, de novos soldados que entendam esta luta e não tenham medo dos mergulhos no mar do inconsciente.
A Casa das Palmeiras já existe há 50 anos e só nos últimos 5 anos que os CAPS começaram a aparecer, primeiramente timidamente e agora sendo presentes em boa parte das cidades brasileiras, num país grande como esse, cada cidade tem sua particularidade e cada CAPS uma cara diferente e um jeito de funcionar diferente, estão desaparecendo as camisas de força de pano e sendo substituída pela químicas que são feitas de uma liga ainda mais forte, pois essa envolve o cérebro. O centro da terapêutica no CAPS ainda é baseado na velha classificação psiquiátrica, nos discípulos de Krepelin que tiveram grande desenvolvimento nas neurociências, mudando até alguns dos seus paradigmas, mas na psiquiatria ainda estão presos a prática da medicalização. A Terapêutica Ocupacional, ou melhor dizendo "A Emoção de Lidar" ainda não é o centro da terapia e dos estudos propostos para o atendimento dos clientes com sofrimento mental. Alguns já são chamados pelo nome, muitas oficinas, ateliês terapêuticos foram montados, o afeto existe, mas não é reconhecido como a mais avançada ferramenta terapêutica. Ainda temos muito que caminhar. Nós continuamos vivendo em um país sem memória, a explicação oficial sobre a criação deste dispositivo de saúde mental é uma homenagem a um centro de atendimento dia criado na rua Itapeva em São Paulo na década de 80 do século passado. O ineditismo da casa das Palmeiras é sutilmente esquecido.
Desde que comecei a trabalhar com pessoas como o Maurício que mergulhava no seu mundo interno com produções plásticas procurei estudar o trabalho da "velha Nise", o que encontrei foi uma mulher ousada que fez uma pequena revolução no seu trabalho cotidiano. Colocando sua ética política e de entendimento e enfrentamento do mundo em um trabalho que foi construído durante mais de 60 anos. Não encontrei a "velha Nise" e sim uma eterna jovem que sempre colocava novos desafios para com muito trabalho e luta ultrapassá-los.
Muito se lembra do "mito de Nise", salas são criadas em congresso de Saúde Mental para homenageâ-la, Centro de Atenção Psicossocial (Caps) são batizados com seu nome; mas o estudo sistemático de sua obra, o mergulho no inconsciente, os estudos de seus grossos livros da sua biblioteca são enfrentados por poucos Beneditos.
A sua indignação mostrada em negar-se em apertar o botão do eletrochoque na sua volta ao trabalho psiquiátrico na década de 40 do século passado ainda precisa estar viva hoje. No sétimo ano do segundo milênio após a morte de Jesus Cristo pessoas são confinadas em hospitais psiquiátricos, agora com nomes camuflados, e submetidas aos horrores do Inferno de Dante. Visitei a poucos dias um Centro de Desenvolvimento do Deficiente Mental localizado na cidade que moro, a menos de 500 metros do apartamento para o qual mudei e para a minha indignação lá chegando encontrei pessoas classificadas pela maneira que julgava abominada da humanidade. Uma grande ala de "vegetais", uma área de pessoas que não "incomodam os outros", outra ala de homens violentos, outra ala de mulheres violentas, onde tudo tem cadeado e os armários de ferro são amassados. Outra ala é de doentes com "hipersexualidade" que usam macacões para não conseguir se tocar. Em outra ala temos os nudistas assexuados que segundo a funcionária que me mostrou o lugar "não tem potência sexual". Percebi um esforço dos funcionários em tentar levar afeto para a Kelly, a Maria e os outros 180 seres humanos que lá estavam. Estas pessoas foram aglutinadas para "limpar outras instituições" e estavam em um hospital para deficientes físicos e mentais abandonados criada por um cartel de psiquiatras da região de Sorocaba para aumentar o lucro, primeiramente a idéia era criar um hospital psiquiátrico nos moldes normais, mas a luta antimanicomial que aumentava sua influência com a democratização no Estado de São Paulo não permitiu, então foi aberto um hospital específico para a população ligada a Febem que teria que zelar por estas vidas. Durante a visita eu vi um moço em uma cadeira de rodas e percebi que ele não tinha uma das orelhas, perguntei o que aconteceu e a funcionária me contou que tinha sido comida por outro interno numa época no início da década de 90 do século passado que os seres humanos que estavam sob o cuidado daquela instituição ficaram privados da alimentação por problemas relacionados a diminuição dos lucros dos psiquiátras que eram donos desse "negócio". O grito de Artraud em sua carta aos médicos do seu asilo precisava ser ecooado nesta instituição, pois hoje um dos donos desse "negócio" na época é o responsável pelo saúde mental no mesmo município, nos dias atuais o negócio de cuidar da verba repassada pelo governo federal para os municípios gerenciar seus centros-dias é maior que o para hospitais psiquiátricos. Os casos de maior embotamento muitas vezes são somente medicados e não tem a chance de experimentar a emoção de lidar. Precisamos encontrar muitos terapeutas com a espingarda de Lampião e o coração da Grande Mãe para realizar a revolução diária pelo trabalho e entregar a fatia necessária de afeto aos clientes que sofrem com as dores psíquicas e com as dores ainda mais forte de enfrentar este mundo.
O mundo está cada vez mais consumista e a ética parece ter desaparecido, será que umas lições de Espinoza nos ajudariam?
Mas nem só de notícias duras vive o mundo. Cada vez aparecem mais pessoas dispostas a entregar-se as profissões do cuidar, que fazem sua profissão de fé em transmitir o afeto para seu próximo, a energia feminina tenta equilibrar as destruições que o masculino trouxe a este mundo. Estas guerreiras da luz nos trazem esperança e nos fazem continuar a batalha.
Sem tomar mais seu tempo nas estrelas, mando abraços para as outras estrelas do firmamento, Raphael, Adelina, Isaac, Graciliano, Murilo Mendes, Mário Pedrosa e um abraço quântico para o Fernando Diniz,
Seu brilho é muito bonito olhando daqui da Terra,
José Otávio
P.S: pensei em me apresentar, mas imagino que estrelas do firmamento não precisem que nos apresentemos)
Porto Feliz, 06 de outubro de 2006
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