sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Novo Capitalismo?

Publico abaixo um manifesto que também subscreveria com lucidez. É uma discussão que está alijada da mídia e dos círculos decisórios sobre a crise atual. Leiamos o manifesto:

“Novo capitalismo?”

Chegou o momento da mudança à escala pública e individual. Chegou o momento da justiça.

A crise financeira aí está de novo destroçando as nossas economias, desferindo duros golpes nas nossas vidas. Na última década, os seus abanões têm sido cada vez mais frequente e dramáticos. Ásia Oriental, Argentina, Turquia, Brasil, Rússia, a hecatombe da Nova Economia, provam que não se trata de acidentes conjunturais fortuitos que acontecem na superfície da vida económica mas que estão inscritos no próprio coração do sistema.

Essas rupturas, que acabaram produzindo uma contracção funesta da vida económica actual, com o argumento do desemprego e da generalização da desigualdade, assinalam a quebra do capitalismo financeiro e significam o definitivo ancilosamento da ordem económica mundial em que vivemos. Há, pois, que transformá-lo radicalmente.

Na entrevista com o presidente Bush, Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, declarou que a presente crise deve conduzir a uma “nova ordem económica mundial”, o que é aceitável, se esta nova ordem se orientar pelos princípios democráticos – que nunca deveriam ter sido abandonados – da justiça, liberdade, igualdade e solidariedade.

As “leis do mercado” conduziram a uma situação caótica que levou a um “resgate” de milhares de milhões de dólares, de tal modo que, como se referiu acertadamente, “se privatizaram os ganhos e se nacionalizaram as perdas”. Encontraram ajuda para os culpados e não para as vítimas. Esta é uma ocasião única para redefinir o sistema económico mundial a favor da justiça social.

Não havia dinheiro para os fundos de combate à SIDA, nem de apoio para a alimentação no mundo… e afinal, num autêntico turbilhão financeiro, acontece que havia fundos para que não se arruinassem aqueles mesmos que, favorecendo excessivamente as bolhas informáticas e imobiliárias, arruinaram o edifício económico mundial da “globalização”.

Por isto é totalmente errado que o Presidente Sarkozy tenha falado sobre a realização de todos estes esforços a cargo dos contribuintes “para um novo capitalismo”!… e que o Presidente Bush, como dele seria de esperar, tenha concordado que deve salvaguardar-se “a liberdade de mercado” (sem que desapareçam os subsídios agrícolas!)…

Não: agora devemos ser resgatados, os cidadãos, favorecendo com rapidez e valentia a transição de uma economia de guerra para uma economia de desenvolvimento global, em que essa vergonha colectiva do investimento de três mil milhões de dólares por dia em armas, ao mesmo tempo que morrem de fome mais de 60 mil pessoas, seja superada. Uma economia de desenvolvimento que elimine a abusiva exploração dos recursos naturais que tem lugar na actualidade (petróleo, gás, minerais, carvão) e que faça com que se apliquem normas vigiadas por uma Nações Unidas refundadas – que envolvam o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial “para a reconstrução e desenvolvimento” e a Organização Mundial de Comércio, que não seja um clube privado de nações, mas sim uma instituição da ONU – que disponham dos meios pessoais, humanos e técnicos necessários para exercer a sua autoridade jurídica e ética de forma eficaz.

Investimento nas energias renováveis, na produção de alimentos (agricultura e aquicultura), na obtenção e condução de água, na saúde, educação, habitação… para que a “nova ordem económica” seja, por fim, democrática e beneficie as pessoas. O engano da globalização e da economia de mercado deve terminar! A sociedade civil já não será um espectador resignado e, se necessário for, utilizará todo o poder de cidadania que hoje, com as modernas tecnologias de comunicação, possui.

Novo capitalismo? Não!

Chegou o momento da mudança à escala pública e individual. Chegou o momento da justiça.

Federico Mayor Zaragoza
Francisco Altemir
José Saramago
Roberto Savio
Mário Soares
José Vidal Beneyto

publicado em: Cadernos de Saramago

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A Viagem do Elefante, novo livro do escritor português José Saramago, será lançada mundialmente no dia 27 de novembro no SESC Pinheiros em São Paulo, repetindo o acontecido com o livro anterior Intermitências da Morte que também foi apresentado primeiramente em terras brasileiras. Saramago em sua costumeira clareza dedica o livro "A Pilar, que não deixou que eu morresse". Também mostra um lado humilde e doce de sua personalidade no agradecimento à Glida Lopes Encarnação que foi a anfitriã num jantar no restaurante O Elefante em Salzburgo na Alemanha, onde Saramago viu a figura de um elefante, da Torre de Belém e de uma construção de Viena que foram o mote criativo para a realização deste livro baseado em um fato que dizem ter sido real.
Saramago baseado em escassas informações históricas criou um conto, como ele denomina o livro pela falta de uma companheira para o elefante salomão, grafado com a letra inicial em letra minúscula em uma assumida escolha estilística que traz uma cumplicidade com o leitor que assim que coloca a caixa alta por conta própria no ato da leitura e no final da excursão à Viena acredita que não deveria outra maneira de dispor as letras e vislumbra a inutilidade de usar letras maiúsculas em nomes próprios.
Dom João III e sua esposa Dona Catarina de Áustria enviam um elefante para presentear o primo Maximiliano e assim acompanhamos a trajetória do elefante de Lisboa para Valladolid e depois para Viena. Saramago na trilha percorrida pelo elefante, faz incursões em temas já tratados em livros anteriores e aparece em uma inesperada materialização do narrador em um personagem que experimenta o renascimento ainda em vida guiado pelos baritos do elefante e desaparece misteriosamente em uma onomatopéia cara aos paquidermes, Ploft...
A insólita história é contada com riqueza de detalhes e momentos de tensão como uma novela de cavalaria em que a ação nunca acontece de forma explícita e sim como uma possibilidade futura. O destino de Salomão é motivo de reflexão do narrador que discorre sobre o passado, o presente e o destino de todos os seres.
Fica a todos o convite para conhecerem Salomão em mais esta saborosa leitura que José Saramago nos propicia.

Livro: A viagem do elefante
Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 256
Lançamento mundial: 27 de novembro de 2008.