sábado, 6 de outubro de 2007

A primeira postagem


A primeira postagem foi uma carta imaginária que enderecei à psiquiatra Nise da Silveira, falecida em 1999. Nela conto a situação da saúde mental hoje em nosso país. Seguirão outras cartas, escritos, arte e ciência... Sejam bem vindos a este novo blog e não se esqueçam de deixar seu comentário.

Carta Imaginária

Cara Nise,


Já faz mais de 60 anos desde a criação do Ateliê de Pintura do Engenho de Dentro e do Início do seu trabalho no Setor de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Nacional, hoje com o nome Instituto Municipal Nise da Silveira. Não sei se você iria gostar da homenagem, pois as grades ainda rodeiam o complexo psiquiátrico e a circulação de medicação aumentou muito e os cachorros estão desaparecendo devagar numa proporção mais lenta. O Museu de Imagens do Inconsciente resiste a duras penas e graças aos incansáveis guerreiros que você treinou e dirigiu. Mas precisam de mais reforço, de novos soldados que entendam esta luta e não tenham medo dos mergulhos no mar do inconsciente.
A Casa das Palmeiras já existe há 50 anos e só nos últimos 5 anos que os CAPS começaram a aparecer, primeiramente timidamente e agora sendo presentes em boa parte das cidades brasileiras, num país grande como esse, cada cidade tem sua particularidade e cada CAPS uma cara diferente e um jeito de funcionar diferente, estão desaparecendo as camisas de força de pano e sendo substituída pela químicas que são feitas de uma liga ainda mais forte, pois essa envolve o cérebro. O centro da terapêutica no CAPS ainda é baseado na velha classificação psiquiátrica, nos discípulos de Krepelin que tiveram grande desenvolvimento nas neurociências, mudando até alguns dos seus paradigmas, mas na psiquiatria ainda estão presos a prática da medicalização. A Terapêutica Ocupacional, ou melhor dizendo "A Emoção de Lidar" ainda não é o centro da terapia e dos estudos propostos para o atendimento dos clientes com sofrimento mental. Alguns já são chamados pelo nome, muitas oficinas, ateliês terapêuticos foram montados, o afeto existe, mas não é reconhecido como a mais avançada ferramenta terapêutica. Ainda temos muito que caminhar. Nós continuamos vivendo em um país sem memória, a explicação oficial sobre a criação deste dispositivo de saúde mental é uma homenagem a um centro de atendimento dia criado na rua Itapeva em São Paulo na década de 80 do século passado. O ineditismo da casa das Palmeiras é sutilmente esquecido.
Desde que comecei a trabalhar com pessoas como o Maurício que mergulhava no seu mundo interno com produções plásticas procurei estudar o trabalho da "velha Nise", o que encontrei foi uma mulher ousada que fez uma pequena revolução no seu trabalho cotidiano. Colocando sua ética política e de entendimento e enfrentamento do mundo em um trabalho que foi construído durante mais de 60 anos. Não encontrei a "velha Nise" e sim uma eterna jovem que sempre colocava novos desafios para com muito trabalho e luta ultrapassá-los.
Muito se lembra do "mito de Nise", salas são criadas em congresso de Saúde Mental para homenageâ-la, Centro de Atenção Psicossocial (Caps) são batizados com seu nome; mas o estudo sistemático de sua obra, o mergulho no inconsciente, os estudos de seus grossos livros da sua biblioteca são enfrentados por poucos Beneditos.
A sua indignação mostrada em negar-se em apertar o botão do eletrochoque na sua volta ao trabalho psiquiátrico na década de 40 do século passado ainda precisa estar viva hoje. No sétimo ano do segundo milênio após a morte de Jesus Cristo pessoas são confinadas em hospitais psiquiátricos, agora com nomes camuflados, e submetidas aos horrores do Inferno de Dante. Visitei a poucos dias um Centro de Desenvolvimento do Deficiente Mental localizado na cidade que moro, a menos de 500 metros do apartamento para o qual mudei e para a minha indignação lá chegando encontrei pessoas classificadas pela maneira que julgava abominada da humanidade. Uma grande ala de "vegetais", uma área de pessoas que não "incomodam os outros", outra ala de homens violentos, outra ala de mulheres violentas, onde tudo tem cadeado e os armários de ferro são amassados. Outra ala é de doentes com "hipersexualidade" que usam macacões para não conseguir se tocar. Em outra ala temos os nudistas assexuados que segundo a funcionária que me mostrou o lugar "não tem potência sexual". Percebi um esforço dos funcionários em tentar levar afeto para a Kelly, a Maria e os outros 180 seres humanos que lá estavam. Estas pessoas foram aglutinadas para "limpar outras instituições" e estavam em um hospital para deficientes físicos e mentais abandonados criada por um cartel de psiquiatras da região de Sorocaba para aumentar o lucro, primeiramente a idéia era criar um hospital psiquiátrico nos moldes normais, mas a luta antimanicomial que aumentava sua influência com a democratização no Estado de São Paulo não permitiu, então foi aberto um hospital específico para a população ligada a Febem que teria que zelar por estas vidas. Durante a visita eu vi um moço em uma cadeira de rodas e percebi que ele não tinha uma das orelhas, perguntei o que aconteceu e a funcionária me contou que tinha sido comida por outro interno numa época no início da década de 90 do século passado que os seres humanos que estavam sob o cuidado daquela instituição ficaram privados da alimentação por problemas relacionados a diminuição dos lucros dos psiquiátras que eram donos desse "negócio". O grito de Artraud em sua carta aos médicos do seu asilo precisava ser ecooado nesta instituição, pois hoje um dos donos desse "negócio" na época é o responsável pelo saúde mental no mesmo município, nos dias atuais o negócio de cuidar da verba repassada pelo governo federal para os municípios gerenciar seus centros-dias é maior que o para hospitais psiquiátricos. Os casos de maior embotamento muitas vezes são somente medicados e não tem a chance de experimentar a emoção de lidar. Precisamos encontrar muitos terapeutas com a espingarda de Lampião e o coração da Grande Mãe para realizar a revolução diária pelo trabalho e entregar a fatia necessária de afeto aos clientes que sofrem com as dores psíquicas e com as dores ainda mais forte de enfrentar este mundo.
O mundo está cada vez mais consumista e a ética parece ter desaparecido, será que umas lições de Espinoza nos ajudariam?
Mas nem só de notícias duras vive o mundo. Cada vez aparecem mais pessoas dispostas a entregar-se as profissões do cuidar, que fazem sua profissão de fé em transmitir o afeto para seu próximo, a energia feminina tenta equilibrar as destruições que o masculino trouxe a este mundo. Estas guerreiras da luz nos trazem esperança e nos fazem continuar a batalha.
Sem tomar mais seu tempo nas estrelas, mando abraços para as outras estrelas do firmamento, Raphael, Adelina, Isaac, Graciliano, Murilo Mendes, Mário Pedrosa e um abraço quântico para o Fernando Diniz,

Seu brilho é muito bonito olhando daqui da Terra,


José Otávio



P.S: pensei em me apresentar, mas imagino que estrelas do firmamento não precisem que nos apresentemos)

Porto Feliz, 06 de outubro de 2006